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sonhos e utopias através do skate

Há acontecimentos ou coisas, seja na realidade concreta ou na realidade artística, que transformam o percurso do homem ao adicionar um outro aspecto no viver devido ao espanto que elas causam. Nós fomos feitos para sonhar, alimentar utopias, viver para além das contingências da sobrevivência. O homem já produziu muitas coisas assim nessas realidades.

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Acontecimentos desse tipo na realidade concreta, costumam não escapar para a maioria dos homens por conta da imediatez, tangibilidade, acessibilidade e veiculação. Um feito esportivo, um novo tratamento medicinal, uma nova tecnologia digital, um novo design de produto, e por aí vai.  Muitos deles, muitas vezes, vem emoldurados em um constructo das ciências e suas aplicações como capazes de transformar a vida e a capacidade humana. Alguns são, alguns bem que poderiam ser. Porém, potencialidades e construções de outros sentidos tendem a ser engolidas ou sugadas pela imediatez das contingências dos dias atuais e dos desejos sociais em vigor.

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Só que há de se encontrar brechas quase que invisíveis flutuando por aí. Em papéis amassados, ideias sendo curtidas, pensamentos que são concretizados e que se tornam capazes de captar e imunizar as aventuras humana. E por meio delas fazer vigorar aquilo que há de mais importante na invenção humana, que é o bom sonho e a boa utopia.

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A última vez que isso aconteceu e eu me dei conta durante o próprio ato, foi um dia desses. No dia 25 de setembro de 2025. Quando um homem e seu skate, em um prédio com sua arquitetura como criatura e criadora, com duas laterais em forma igual a de um quarter pipe para se andar de skate, desceu de uma delas de uma altura de 70 metros. Nesse momento, corpo, espaço e ciência, sonho e realidade, imaginação e concretude, se encontraram em um feixe de realizações que translucidou para todos nós a grande aventura que é e pode ser a vida aqui.

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O prédio que antes era o local onde em seu interior homens exerciam seus ofícios e trabalhavam em prol da administração pública, uma obra da arquitetura moderna com sua forma e linhas dispostas de tal modo que é capaz de causar uma sensação de vertigem ao mesmo tempo emanar uma ufania do homem em suas realizações pessoais e um projeto de sociedade. Que desde a sua concepção e execução nos anos 70, que coincide com a mesma época que uma juventude procurava formas no concreto e no asfalto onde pudesse "surfar" e embalar o ritmo de algo novo que ela estava fazendo com seu skate. Que já devia ter passado pela imaginação do skatista mais remoto de Porto Alegre ao avistar a fachada daquele prédio, de andar em seu quarter pipe monumental mesmo que fosse apenas para dar uma batida de front ou de back com o tail de seu skate no sopé dessa que se tornaria a grande onda lendária do asfalto. Agora, foi finalmente encarada. Atualizando a imaginação mais remota e a possibilidade mais cobiçada e considerada improvável do skate nos últimos 30 anos provavelmente, em um drop de cerca 20 metros abaixo de seu topo. Que praticamente fundiu a vida e a confiança de um homem e seu skate em uma coisa só enquanto se mantinha em uma plataforma minúscula a muitos metros do seu ponto mais baixo. E logo em seguida, com as quatros rodinhas, os dois eixos, a madeira e o espírito de aventura correndo velozmente a cada giro das rodinhas e a vibração do shape em seus pés, percorrer em alta velocidade a sua superfície adaptada que o projetava e a sua visão em direção ao infinito de novas possibilidades. Em uma espécie de acelerador de partículas momentâneo que, alimentado pelo skate, sintetizava matéria e energia em uma fricção entre potencialidade, imaginação e capacidade traduzidas em adrenalina e a realização do impossível.

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Vivemos por cerca de 2 horas naquele dia 25 de setembro de 2025 um grande sonho compartilhado, um imaginário coletivo sendo realizado e com ele uma ufania social caracterizada através do skate, o vislumbre de uma glória comum por meio de todo o trajeto até o topo do prédio, a descida de rapel até a pequeníssima plataforma, e o drop que em fração de poucos segundos era concluído e se concretizava como um grande arroubo de espanto e de alegria.

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O homem precisa alimentar sonhos, seja na arquitetura, no skate, na música, no cinema, no ofício, no seu bairro, na sua cidade, nas suas amizades, nas suas vontades, nas possibilidades. Uma hora, um desses sonhos transfiguram um bem maior.

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Como disse um amigo meu: o CAFF (Centro Administrativo Fernando Ferrari) agora pode se chamar CASD (Centro Administrativo Sandro Dias). Ao menos em meus pensamentos é assim que se chama agora. Temos que nutrir as boas utopias.​

Publicado em setembro de 2025

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