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o skate como poética visual de si 

Eu lembro que onde eu passei boa parte da minha vida, e que foi onde comecei andar de skate, havia um skatista mais velho chamado Carlos, o “Caê”, como era conhecido por lá. O Caê era um skatista com os traços e habilidades do skate de rua que deixava nós mais novos impressionados. Pulava escadas grandes, se arriscava em corrimões de escada, tinha um popping considerável em suas manobras, executava manobras flipadas com uma plasticidade bonita de se ver. Tudo isso lhe rendia também muitos shapes quebrados, ver eles durarem cerca de sete dias apenas não era algo incomum. Toda essa habilidade com o skate nos pés se juntava com um traço de personalidade atrevida, de ir para cima dos desafios e voltar as manobras, lembro de ele ter também uma remada com uma certa plasticidade em seu movimento. Isso fazia dele uma espécie de personagem para nós. Tinha elementos e traços de um skatista profissional com as suas habilidades em cima do skate e características na personalidade que cada vez que o encontrava ia o transformando em uma referência para nós que andávamos no mesmo lugar.

Com o passar do tempo andando de skate, parece que se torna meio natural ir percebendo esse tipo de coisa de passar a identificar características e elementos em algumas pessoas e no seu jeito de andar que traz uma espécie de autoralidade para o seu skate. Alguns desenvolvem características tão particulares que criam, por assim dizer, uma flexão na linguagem do skate. Quando Dylan Rieder vai surgindo e ascendendo na cena do skate foi algo assim que se deu. Um personagem que moldaria uma outra linguagem para o skate e no skate.

Em sua parte, no vídeo Mind Field pela Alien Workshop lançado no ano de 2009, Dylan Rieder demonstrava já algo autoral e um jeito expansivo de andar, só que ainda em gestação. O movimento de seus braços na execução das manobras era algo que marcava, mesmo que você não estivesse muito consciente disso. Em uma plástica única de movimentos abertos e controlados dos braços, o corpo de Dylan flutuava na maioria das manobras como se ele ‘aterrissasse’ e ‘pousasse’ perfeitamente. Isso não quer dizer que ele tenha sido propriamente o primeiro a unir plástica com uma ciência biomecânica do corpo no skate - o que é algo meio inerente no skate que une movimentos técnicos e estéticos - mas nele era uma característica notável, talvez um pouco mais consciente e até mesmo trabalhada, junto com seus chapéus pouco usuais naquele vídeo.

É no vídeo da Gravis, sua solo part lançada no ano seguinte, que de fato se apresenta em formato bem definido e que se consolida a verve desse algo que Dylan Rieder apontava no Mind Field. É improvável não notar que nesse vídeo ele não é apenas um skatista em sua vídeoparte com takes de manobras e uma trilha sonora de fundo. Ele se torna praticamente um ator em cena. O ator principal, que entrega uma atuação marcante por meio de sua melhor performance com o skate em um ballet urbano folk contemporâneo, mostrando um jovem, um skatista, um performer, um poeta visual. Tudo fundido em apenas uma pessoa bailando com o seu skate, fluindo por entre manobras e cenários e que além dessa sua dança com o skate cria cenas que infundem um retrato e um espasmo biográfico. Direção de fotografia, edição, trilha sonora, ‘set de filmagem’, figurino. Tudo trabalhado com esmero e como se fosse preparado para abrir um novo feixe de luz sobre o skate através desse personagem.

Como não notar os closes no rosto de Dylan, que aparenta um certo mistério intransponível mesmo quando sorri e que parece evitar ser visto frente a frente pela câmera. Como não reparar logo no início suas calças justas com barra dobrada, suas camisetas despojadas e seus tênis com linhas e acabamentos que trazem elegância para o calçado esportivo, como se tivesse saído de algum comercial de roupas direto para andar de skate. Como não notar enquanto pula um banco com o que é, provavelmente, um dos impossibles mais bonitos já registrados, o movimento e a linha invisível que ele desenha com o seu skate antes de chegar ao obstáculo, o que poderia ser uma cena urbana de algum filme, uma fotografia exposta em alguma galeria contemporânea ou a imagem de um pôster de skate encartada em alguma revista do ramo.

dylan. é o skate enquanto a arte de criar a si e recriar o seu próprio mundo, o registro de um dançarino do skate em performance leve e altiva, com um jogo de cenas que cria uma poesia imagética sobre a sua personalidade e que reorganiza o vídeo de skate para além das manobras.

E quase que como uma experiência realizada como uma instalação contemporânea de uma sala de espelhos, em que os reflexos de si em todas as direções jogam com a própria imagem e com a habilidade de captar a curiosidade dos demais, algo aconteceu ali que despertou um outro significado e reelaborou a linguagem e os anseios de uma geração em cima do skate, ou ao menos de uma parte dela. Comportamento, moda, estilo, execução de manobras. Tudo em conjunto abriu mais um sentido e deu mais um acabamento para o skate enquanto entidade.

Vídeos de skate de marcas e mais ainda os vídeos independentes - esses últimos que passam a ser disponibilizados aos montes na web por volta da mesma época - evidenciam uma absorção e a influência dessa nova fronteira da expressão estética jovem sobre o skate que Dylan Rieder teria a partir de 2010. Ele e seu vídeo dylan. imprimiram um marco no sentido de um vídeo de skate, bem como um novo marco no estilo e comportamento.

Dylan se foi dessa em outubro de 2016 e, de alguma forma, sentimos até os dias de hoje os ventos que sopraram com suas remadas e manobras.

Publicado em outubro de 2025

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